Podcasts que irritam

2007-04-22

Só há uma coisa mais irritante do que uma coisa extremamente irritante: uma coisinha um pouco irritante que a gente tem que enfrentar um monte de vezes. Das coisinhas que me irritam, a mais chata são os podcasts que não identificam adequadamente seus arquivos mp3 com tags id3.

Dois podcasts me irritam: os da CBN e o do Diogo Mainardi, na Veja. O problema dos podcasts da CBN é que vêm todos com um título (Rádio CBN) e um álbum padrão (CBN – A rádio que toca notícia). Isso é quase que completamente inútil. Costumo carregar meu ipod uma vez por semana e geralmente tenho uns 20 comentários da CBN pra ouvir. Como eles têm todos a mesma informação, não dá pra saber nem a data e nem de que comentarista é cada podcast. O problema do podcast do Mainardi é mais simples: o pessoal da Veja simplesmente não põe informação alguma nos mp3.

Cansado de ter que classificá-los manualmente pela interface do gtkpod, procurei por alguma ferramenta de linha de comando que pudesse me ajudar. O mp3info, que vem no pacote de mesmo nome no meu Ubuntu Linux, parece perfeito. Escrevi um pequeno script Perl (podcast-fix) pra automatizar o processo. O script recebe uma lista de arquivos mp3 como argumentos. Ele procura identificar dentre eles os podcasts da CBN e do Mainardi e invoca o mp3info para inserir as tags id3 que eu quero. Como eu baixo meus podcasts todos num único diretório, pra corrigir as tags dos arquivos problemáticos basta eu chamar o script assim:

podcast-fix ~/casts/*

Pronto. Uma irritação a menos na minha vida. 🙂


FISL8, a volta

2007-04-15

Pra que eu não me esqueça como foi e possa evitar no futuro, eis como foi que cheguei em casa de volta do FISL8.

O avião da TAM atrasou 40 minutos pra sair de Porto Alegre, o que não foi totalmente inesperado. Cheguei em São Paulo às 22h mas a bagagem demorou a aparecer na esteira. Eu fui conferir se não haveria mesmo algum ônibus direto pra Campinas. Descobri que o último tinha saído às 22h e que o próximo sairia só às 0h15!

A alternativa seria ir pro terminal Tietê e pegar um Cometa de lá. Mas achei que seria mais seguro aguardar no aeroporto. Afinal, eu tinha carregado meu ipod com 10 episódios antigos do Nerdcast que me manteriam felizes enquanto eu aguardava. 🙂

Cheguei em Campinas às 1h15, tonto de sono. Peguei um táxi e cheguei em casa às 2h.

Acabou o martírio. Mas o sono ainda está bravo.


FISL8, terceiro dia

2007-04-14

Fui dormir tarde ontem e não podia acordar muito tarde hoje pois eu precisava fechar a conta do hotel. Em retrospecto, acho que fiz uma grande besteira marcando a volta pra hoje. Primeiro porque tive que perder as três últimas palestras de hoje pra poder vir pro aeroporto. Mas principalmente porque eu vou chegar em Guarulhos depois do último ônibus direto pra Campinas. O plano é ir de táxi até o terminal Tietê, pegar um ônibus pra Campinas e outro táxi até em casa. Eu havia me esquecido do táxi final. Acho que se tivesse deixado pra voltar amanhã o custo de mais uma noite de hotel seria tranquilamente compensado pelo custo dos táxis que terei que pegar. Sem falar que eu acho que só vou estar em casa de madrugada. Oh well… aprendizado pra próxima.

A primeira palestra do dia foi a do Erwin Tehnumberg, sobre o ODF. O Erwin é um alemão que trabalha na Sun, no projeto OpenOffice.org. O blog dele é um dos mais famosos no tratamento dos assuntos OpenOffice.org e OpenDocument Format. Ele contou a história do desenvolvimento do padrão ODF, desde a sua origem no formato XML do OOo 1.0. Eu não sabia, mas a decisão de desenvolver o formato XML foi tomada pelo dono da StarDivision, a empresa alemã que desenvolveu o StarOffice e que foi comprada pela Sun em 1999. A motivação principal para desenvolverem o novo formato foi prover suporte para Unicode, mas na visão dele, criar mais um formato proprietário era errado, pois eles sabiam o quanto lhes havia custado impletar o suporte aos vários formatos proprietários já existentes. O objetivo, desde o princípio, foi especificar um formato aberto, que pudesse ser usado por outras ferramentas de escritório.

Em 2003 a OASIS formou um grupo de trabalho para especificar um padrão para documentos de escritório e decidiram usar a especificação aberta do OOo 1.0. Em 2005, a versão 1.0 do ODF foi ratificada e em 2006 foi abençoada pela ISO. A versão 1.1 saiu em 2006 e suas modificaçõ­es foram focadas no suporte às funções de acessibilidade. Segundo o Erwin, como o ODF referencia vários outros padrões, para suporte a imagens e a notação matemática, por exemplo, o trabalho acabou sendo mínimo, pois estes outros padrões já estavam melhor preparados para isso. A versão 1.2, que deverá ficar pronta ainda este ano, deverá especificar mais completamente o uso de fórmulas, uma área ainda meio em aberto.

Ele não falou quase nada do Open XML, formato da nova verão do MS Office, e que a Microsoft está forçando para que se torne um segundo padrão ISO para documentos de escritório. No seu único slide sobre o assunto ele mostrou que o ODF usa tags XML mais verbosas, o que é criticado por alguns usuários como causa de bloat, mas que ele justificou dizendo que isto é mais uma garantia de que o formato será legível no futuro distante, pois mesmo sem a especificação ele é bastante transparente.

Acho que ele devia ter falado mais do Open XML, sobre os motivos da Microsoft para tentar transformá-lo num padrão ISO e sobre as diferenças fundamentais entre ele e o ODF em termos de complexidade, completude, independência e implementabilidade.

Na seqüência, assisti à palestra sobre o Samba 4, do Felipe Augusto van de Wiel, mais conhecido como faw. O Felipe é desenvolvedor Debian e atua nos projetos Samba e OpenLDAP. A palestra falou sobre as novidades do Samba 4 em relação ao Samba 3. Basicamente, o Samba 3 funciona bem como um PDC numa rede NT4 e como cliente numa rede Active Directory. Mas o Samba 4 trará suporte completo ao CIFS, coisa que nem o Windows Vista faz, e deverá ser uma alternativa completa para um servidor AD.

Ele contou um pouco da história do Samba, elogiando bastante o Andrew ‘Tridge’ Tridgel, autor da primeira versão ainda atuando como líder do projeto. Aliás, o Samba foi iniciado em 1992, de modo que está fazendo 15 anos. Uma história interessante é que cada nova versão do Samba precisa passar pelo “Susan Stage” antes de ser considerado pronto. Susan é a esposa do Tridge. O Susan Stage acontece quando ele manda uma mensagem pra lista dos desenvolvedores avisando que sua esposa já está usando a nova versão no seu computador, sem ter perdido qualquer arquivo e feliz.

A palestra do Felipe estava lotada. É o terceiro ano em que ele se apresenta e parece que já fez sua legião de fãs.

A palestra seguinte foi do Theo de Raadt, líder do OpenBSD. Ele falou sobre o problema que eles enfrentam quando querem implementar um driver para algum dispositivo para o qual o fornecedor não disponibiliza a documentação. Ele mostrou para cada categoria de hardware como estava a situação. De longe, a mais complicada é a dos fornecedores de placas wireless. Parece que apenas dois fornecedores disponibilizam a documentação.

Esta situação é ridícula. Quer dizer, há leis obrigando os produtores de automóveis, por exemplo, disponibilizar a documentção necessária para que qualquer pessoa possa dar manutenção no próprio veículo. Por que com computadores a coisa deveria ser diferente? O fato é que não há uma boa razão para que os fornecedores sejam tão cabeças-duras em se negar a cooperar. Não é por causa de patentes, nem de copyrights e nem de medo que os concorrentes possam usar a informação contra eles. O Theo também não acha que haja uma conspiração contra os desenvolvedores de software livre. Ele desconfia que a razão principal seja a vergonha destes fornecedores em ter que expor na documentação a má qualidade da sua implementação. Segundo ele, a lista de bugs que são descobertos por engenharia reversa em alguns dispositivos é assustadora.

Ele criticou duramente alguns desenvolvedores do Linux por não terem comprado esta briga que ele considera da maior importância. Ele diz que se todos os desenvolvedores, as distros e os usuários dos sistemas livres começarem a atuar ativamente (enviando emails para os fornecedores solicitando a documentação) ou passivamente (recusando-se a comprar hardware dos fornecedores que não colaboram) temos uma boa chance de reverter o problema. Mas sem a ajuda da comunidade Linux ele acha que as chances são pequenas.

Depois, resolvi conferir a palestra da Fernanda Weiden sobre seu trabalho como administradora do Google. Ela foi contratada há 15 meses e está trabalhando no escritório de Zurique, no grupo SysOps. O grupo SysOps é responsável pela manutenção dos servidores e do ambiente de trabalho dos funcionários, mas não cuida dos servidores que implementam os serviços externos do Google.

A palestra foi bastante concorrida e, infelizmente, foi escalada pra uma das salas barulhentas.

A Fernanda começou falando dos projetos nos quais já se envolveu. Um deles é o “Office in a Box”, que pretende especificar e automatizar o processo de configurar os serviços neccessários para suportar um escritório do Google. É interessante que a primeira abordagem considerava a configuração de um servidor para cada serviço. Essa estratégia teve vários problemas. Um deles é que com o aumento do número de serviços que precisam ser suportados, é preciso aumentar o número de servidores. Outro é que a maioria dos servidores acabam ficando ociosos, enquanto alguns deles podem estar sobrecarregados. Por fim, quando um dos servidores cai, demora até que outro possa ser configurado para substituí-lo.

A solução a que chegaram baseia-se em dois princípios. O primeiro é o de virtualizar todos os servidores, de modo a resolver os problemas acima. Usando o Xen, eles podem configurar uma máquina virtual para cada serviço, o que possibita uma melhor utililização do hardware real e uma maior flexibilidade na migração servidores virtuais no caso de um problema físico. O outro princípio tem a ver com o planejamento de capacidade para estes servidores. Eles decidiram medir a carga em cada servidor em função do número de empregados trabalhando em cada escritório. Deste modo, foram capazes de encontrar a capacidade de CPU e de memória necessária para suportar adequadamente cada servidor virtual, em função do número de empregados.

Outro projeto em que ela se envolveu é o Fast (não tenho certeza do nome pois não o anotei). Trata-se de um sistema de automatização da instalação de sistemas. A idéia é que para configurar um novo servidor, basta preconfigurar sua especificação num servidor central, instalar o sistema operacional básico manualmente (via CD ou PXE-boot) e rodar o script do Fast. O script se encarrega de obter as informações necessárias do servidor central e de configurar todo o necessário no novo servidor, inclusive instalando os pacotes de software necessários. Entendi que o Fast usa tecnologias básicas com as quais todo administrador de sistemas está acostumado, como o rsync para sincronizar arquivos.

Outro projeto é o Zombie para monitoração de serviços e de servidores. Entendi que se trata de uma compilação e integração de produtos livres.

Ela falou sobre o Goobuntu, uma distribuição interna do Ubuntu que o Google definiu como sistema operacional padrão da empresa. Isso não significa que eles vão trocar todos os outros sistemas ou que vão obrigar todos a migrarem para o Goobuntu. Mas será o sistema operacional mais bem mantido pela equipe de SysOps. Parece que há três sabores do Goobuntu: servidor, laptop e workstation. Elas são mantidas por uma equipe que analisa e modifica o que for necessário nos pacotes originais do Ubuntu. Não há intenção de disponibilizar o Goobuntu pra fora do Google. Trata-se de um projeto estritamente interno.

É interessante a maneira como a questão de padronização é levada no Google. Ela disse que ninguém é obrigado a usar uma tecnologia específica, seja o sistema operacional, seja algum aplicativo. Há algumas (poucas) pessoas que até usam o Windows. O que acontece é que a maioria normalmente faz pressão para que os demais migrem gradualmente para o que é considerado padrão. Mas nunca ocorre uma ordem que vem de cima pra mudar tudo. Acho que isso é saudável pois permite a coexistência de várias tecnologias evitando uma “monocultura” que poderia tornar a empresa menos flexível e menos ágil.

Esse papo todo foi rápido e ela abriu a sessão pra perguntas. E foram muitas. Perguram bastante sobre o ambiente de trabalho, sobre o processo de seleção e sobre como ela se sente trabalhando na empresa que é o sonho de emprego de 9 entre 10 pessoas que se interessam por tecnologia. Ela se rasgou em elogios e até pediu desculpas por isso. Confirmou quase tudo o que ouvimos falar sobre o Google, desde os 20% do tempo dedicados a projetos pessoais (os quais ela não usufrui por ser muito desorganizada) até as brincadeiras infantis cometidas no escritório.

Sobre sua contratação, ela não se considera um bom modelo porque não foi ela que foi atrás do Google. Eles é que a chamaram. Ela disse que sua insegurança não a teria permitido sequer tentar participar do processo seletivo. Mas, como foi chamada, raciocinou que na pior das hipóteses não perderia nada. O processo é longo e envolve múltiplas entrevistas com os futuros eventuais colegas de trabalho do pretendente.

Perguntada sobre o nível de cobrança a que os empregados são submetidos ela disse que é bastante normal. A cada três meses cada um se reúne com seu gerente imediato e negocia metas. Ao final do período eles se reunem novamente para discutir avaliar os resultados obtidos.

Perguntada sobre as tecnologias que usa ela disse que sempre foi uma “garota linha de comando” e que se sentia perfeitamente à vontade escrevendo scripts bash. Mas a necessidade de usar uma linguagem mais completa a fez investir em Perl, pelo qual ela se apaixonou. Acontece que no Google a maioria dos seus colegas usam Python, o que a forçou a estudá-lo… Ela não pareceu muito feliz… Eu também não ficaria. 🙂

A última palestra a que eu assisti foi sobre LDAP, de novo do faw. Também estava lotada mas não achei tão boa quanto a sobre o Samba. Acho que ele tentou falar demais e acabou não explicandonada muito bem. Pra quem já tinha noção do assunto não houve muita novidade, mas pra quem não sabia nada acho que não ajudou também. De qualquer modo, valeu pra lembrar que LDAP pode servir pra bem mais que meramente unificar o cadastro de contas.

Peguei um táxi e vim cedo pro aeroporto. O avião está atrasado uns 40 minutos e eu já estou me preparando psicologicamente pra enfrentar o problema que vai ser ir de São Paulo até em casa.

No todo, valeu. Sinto que fiquei mais empolgado com o FISL6, mas foi bom o suficiente pra já me deixar com vontade de voltar no ano que vem.

Inté.


FISL8, segundo dia

2007-04-13

O segundo dia tem sido bem melhor que o primeiro, em termos da qualidade das palestras a que consegui assistir. Logo cedo assisti à Free Software and The Matrix, do Alexandre Oliva. Dificilmente verei outra melhor. Ele fez uma colagem de trechos da trilogia The Matrix e foi fazendo comentários enquanto o clipe corria. Não medi, mas deve ter sido mais de meia-hora de clipe. A edição foi muito bem feita, com trechos extremamente hilários e um final empolgante.

De início ele disse que a legislação brasileira permite a utilização de partes de obras alheias na criação de outra, o que lhe dava o direito de fazer o que fez. Seu argumento é que há coisas que a legislação permite explicitamente e coisas que ela proíbe explicitamente. O problema é a fronteira que não fica muito bem definida. Segundo ele, muitas vezes quando temos vontade de fazer alguma coisa que parece estar na fronteira acabamos desistindo por medo de que alguém possa nos questionar. O resultado desta atitude é que a fronteira vai lentamente ficando cada vez mais pro nosso lado. A atitude dele é a oposta, i.e., ele tenta forçar a fronteira do que é permitido a se expandir. Muito bom mesmo. No final ele foi ovacionado de pé por muita gente.

A seguir assisti à palestra sobre Neutralidade na Rede, do Carlos Afonso, membro do Conselho Gestor da Internet no Brasil. Estou ciente da questão mas não a tenho acompanhado em detalhe. A sala estava lotada e ele também foi muito aplaudido.

Como exemplo do que os grandes provedores de hoje estão fazendo ele citou o caso da Brasil Telecom, que estaria usando um sniffer especializado para detectar e restringir o tráfego de VoIP na sua rede. A questão, segundo ele, não é usar o sniffer, pois há razões técnicas para manter estatísticas de utilização da rede. A questão é se a empresa poderia usar estas informações para priorizar tráfego que lhe interessa ao mesmo tempo em que bloqueia ou restringe tráfego que não lhe interessa. No caso específico, a empresa estaria reduzindo a banda efetiva de pacotes de tráfego VoIP que não fossem providos pela própria provedora. Parafraseando a declaração universal dos direitos humanos, ele disse que deveria haver uma outra declaração para a Internet dizendo que “Todos os datagramas são iguais perante a rede”.

Outro exemplo indo na mesma linha é o caso da AT&T que foi denunciada por um funcionário por estar usando um sniffer para capturar pacotes em algum entroncamento de sua rede e repassando as informações coletadas para a própria NSA!

Outra questão que ele levantou é a da eventual obsolescência da UIT como organização. O problema é que a convergência das telecomunicações tradicionais com a Internet deverá obsoletar todos os protocolos padronizados pela UIT a longo prazo. Por isso, haveria um movimento dentro daquela organização vizando trazer pra ela a responsabilidade pela governança da própria Internet.

Por fim, ele comentou sobre a recente reunião do Fórum Internacional de Governança da Internet de que ele participou em Genebra. O assunto de neutralidade da rede estava em pauta quando um representante chinês se levantou e disse que dado o que ele estava vendo ser discutido ele não via razão para que o mundo todo criticasse a censura que o governo Chinês impõe ao acesso à Internet pelos seus cidadãos. Houve uma gritaria geral, criticando o pronunciamento do chinês, mas o Carlos se levantou e disse que o colega tinha um ponto. Afinal, a censura chinesa existe mas é explícita. O governo chinês não a esconde. Já as ações de empresas como a Brasil Telecom e a AT&T são feitas na surdina e têm o efeito de censurar determinado tráfego. Em última instância, a diferença é apenas que são grandes empresas e não governos que estão realizando a censura neste caso.

Depois desta palestra fui ao YAPC::SA::2007, encontro da comunidade Perl. Não havia muita gente. Acho que umas 20. Antes de começar fui abordado por um rapaz que me reconheceu pelo nome. Ele ouviu minhas entrevistas no Papotech e me cumprimentou. Fiquei lisonjeado. O nome dele eu não me lembro, mas ele é conhecido como Lorn, na comunidade Perl. Acabou fazendo uma apresentação rápida e bem interessante sobre o Catalyst. Até dá vontade de brincar com isso.

Antes do Lorn, o Flávio Glock, líder da comunidade Perl no Brasil, apresentou o projeto em que está atualmente envolvido: o MiniPerl6. Trata-se de um compilador que converte miniperl para várias coisas, como Perl5, Perl6 e Parrot. O conceito é interessante e a descrição do processo de bootstrap mais ainda. Miniperl é um Perl em miniatura. O suficiente para escrever um compilador nele próprio. A idéia seria escrever o compilador Perl6 em miniperl pra poder usá-lo no bootstrap de um futuro compilador Perl6-Perl6. Depois da palestra conversei mais um pouco com ele e perguntei sobre o relacionamento entre os projetos Pugs e Parrot com o dele. O projeto MiniPerl6 está sendo tocado dentro do Pugs, com a benção do próprio Larry Wall. Parece que houve um stress no passado quando o Glock participou do projeto Parrot e não se sentiu bem recebido. Agora parece que isso são águas passadas e que os vários projetos estão trocando figurinhas. Mas quanto à questão de qual a expectativa dele para termos finalmente um compilador Perl6 oficial, ele desconversou. 🙂

Saí no meio do YAPC pra assistir à apresentação do Randal Schwartz sobre o git, a ferramenta de controle de versão que o Linus Torvalds começou a desenvolver depois que não pode mais usar o BitKeeper. Foi uma apresentação excelente, se bem que foi tanta informação que no final eu estava meio tonto. Acho que todo desenvolvedor deveria assistir a uma apresentação assim pra ver quanta funcionalidade uma ferramenta moderna como o git oferece para suportar o desenvolvimento de software de modo distribuído.

Em relação à arquitetura, o git se parece mais com o BitKeeper e com o SVK e é bem diferente do CVS, do SVN ou do ClearCase, pois não há um repositório central no qual todos os desenvolvedores mantêm seus objetos. Cada desenvolvedor cria um repositório local e interage com os repositórios alheios através de cópias e de merges.

O git é otimizado para:

  • Desenvolvimento distribuído
  • Grandes conjuntos de arquivos (o Linux kernel tem aproximadamente 25.000 arquivos)
  • Merges complexos
  • Criação de branches
  • Ser extremamente eficiente
  • Ser robusto

Por outro lado, ele não é otimizado para:

  • Manter metadados dos arquivos. De fato, ele lembra apenas se o arquivo é executável ou não. Permissões de leitura e de escrita, usuário e grupo são coisas que ele simplesmente não guarda. O Linus Torvalds argumenta que estas informações são irrelevantes para o tipo de arquivos para o qual o git é feito, i.e., para arquivos fonte de programas.
  • Manter o histórico de um único arquivo.
  • Tornar as coisas difíceis. 🙂

Todo objeto mantido pelo git, seja um arquivo, um diretório, uma tag ou um branch, tem uma chave SHA1. Este parece ser o segredo do git. Não vou explicar aqui, mas esta decisão é que parece ter possibilitado a arquitetura descentralizada, a eficiência e a robustez da ferramenta.

Ele falou bastante e fez uma demonstração básica. Foi muita coisa e não me lembro de tudo. Uma das coisas que mais me impressionou foi a facilidade para a criação e descarte de branches. Eles são realmente baratos. Um novo branch gasta apenas 41 bytes! E quanto você resolve que um branch não deu em nada, pode mandar destruí-lo e ele realmente vai embora, ao contrário do que acontece com a maioria dos outros sistemas de controle de versão.

Achei fantástico que toda a demonstração foi feita dentro do Emacs. O Randal disse que: “I live inside Emacs“. Mas, a certa altura, ele se pegou criando arquivos usando comandos como “echo something >file1“. Mas como a shell dele estava dentro do Emacs ele disse: “isn’t it increadible that I’m using echo to create a file inside Emacs?” 🙂

Perguntei-lhe sobre outros projetos que já estejam usando o git e ele me disse que a entrada sobre o git no Wikipedia mantém uma lista. Mas citou o X.org e o Wine.

Do git acabei pegando o final da palestra ” Designing Efficient APIs for Long Lived Open Source Projects” de um cara da Sun. Era tudo Java e fiquei boiando. 🙂

Na seqüência eu fui assistir à palestra “As Ações mais Legais da FSFLA”, apresentada pelo Oliva, pela Fernanda Weiden e pelo professor Pedro Resende, todos conselheiros da FSFLA. Eles fizeram um rápido relato das questões mais relevantes em que a FSFLA se envolveu no último ano em defesa da liberdade dos usuários de software. Começando pelo estudo que fizeram sobre os requisitos que a própria Constituição Federal impõe sobre as tecnologias empregadas na implementação dos sistemas informação do governo e dos meios de comunicação com o cidadão. Eles demonstram que estes requisitos acabam exigindo que as quatro liberdades que definem o software livre sejam resguardadas, o que implica em que estas tecnologias só poderiam ser implementada usando software livre. Esses requititos vêm de princípios básicos, como soberania nacional, transparência e isonomia na prestação de serviços e no investimento responsável dos recursos públicos. Eu não poderia fazer melhor do que referenciar o artigo em que tudo isso é explicado convincentemente.

Outro assunto foi o dos softwares impostos, como o programa para declaração de imposto de renda. Não é meramente o fato de ele ser feito em Java que ainda não (mas quase) é software livre. Outro problema é que o parágrafo terceiro do artigo primeiro da Instrução Normativa SRF nº 616, de 31 de janeiro de 2006, da Receita Federal define alguns critérios que proíbem quem quer que os satizfaça de declarar sua renda no formulário em papel. O próprio Alexandre Oliva cai num destes critérios e é obrigado a fazer a declaração com o programa da Receita. Incomodado com isso (eufemismo meu), por considerar que utilizar um programa prietário é imoral, ele tentou argumentar com a Receita Federal solicitando que pudesse fazer sua declaração e papel. Sem sucesso. Mesmo alegando que é um direito constitucional recusar-se a fazer alguma coisa que vá contra suas convicções morais (ou mesmo religiosas), desde que esta coisa não seja imposta a todos. Como nem todos são obrigados a declarar com o uso do programa, ele estaria mais que justificado em se recusar por motivos morais. É o que diz o inciso VIII, do artigo quinto, da Constituição Federal.

Mas isso não é tudo. A Lei de Software, em seu artigo nono, diz que um programa só pode ser usado mediante uma licença de uso de seu autor. Acontece que o programa da Receita Federal não tem uma licença, daquelas que a gente não lê e clica OK. O Oliva questionou o pessoal da Receita e o máximo que conseguiu foi uma resposta na linha de “pode baixar e usar sim”. Ou seja, ao pé da letra da lei, o uso do programa da Receita é ilegal.

E ainda tem mais. Decompilando o binário Java do programa da Receita (que, diga-se de passagem, vem com os símbolos de depuração), o Oliva descobriu que ele usa mais de 10 programas livres, a maioria deles licenciado com licenças sem copyleft, o que permite que sejam incorporados ao código proprietário do programa da Receita. Mas essas licenças exigem que o uso dos programas regidos por elas seja declarado na documentação do programa que os incorpora e que uma cópia das licenças seja fornecida. Mas também há componentes LGPL no programa. Neste caso, a Receita deveria fornecer os fontes deste componente. A esta altura você já deve ter adivinhado que o Oliva pediu os fontes e não os obteve. Disseram a ele que ele os poderia obter do site do componente original. Mas isso não vale. A licença obriga o distribuidor a fornecer os fontes quando solicitados. E além disso, não dá pra saber que versão do componente foi usada e menos ainda foi modificada.

Mas nem tudo está perdido. O Oliva conseguiu um documento especificando o formato do arquivo que programa da Receita gera e foi capaz de gerá-lo sem precisar usar o programa. Mas falta ainda um detalhe. Parece que o arquivo precisa conter um hash, calculado sobre o seu próprio conteúdo, de modo que a Receita possa saber que ele foi gerado com o programa que ela fornece e não por um outro. Por isso, eles não forneceram o algoritmo de cálculo do hash, mas o Oliva está trabalhando no código decompilado do programa pra ver se consegue reconstruí-lo. Ele ainda tem uns quinze dias pra poder entregar sua receita sem cometer uma imoralidade.

As conseqüências do seu eventual sucesso são importantes. Em última análise, ele estará criando uma ferramenta capaz de produzir declarações que a Receita não poderá distingüir de uma gerada pelo seu programa. Em tese, isso não devia ser um problema pra Receita, pois de qualquer modo ela deveria realizar verificações de consistência interna da declaração além de cruzar os dados de cada declaração com os das declarações dos fornecedores referidos por ela. Por que será, então, que a Receita reluta em fornecer as informações necessárias para que alguém possa criar um software alternativo ao seu? Não quero especular, mas não consigo imaginar uma razão moralmente justificável.

Depois deste assunto fascinante, eles comentaram um pouco sobre DRM e como isso pode restringir as liberdades dos consumidores de dispositivos eletrônicos que o implemente. Quem quiser saber mais sobre isso pode ler também sobre a tal Trusted Computing.

Por fim, eles anunciaram que uma nova constituição havia sido adotada hoje pela FSFLA. A partir de hoje a FSFLA não é mais uma entidade jurídica própria, mas apenas um grupo de pessoas físicas. Todos os membros passam a ser conselheiros e não há mais uma estrutura formal. A razão para isso é evitar que a FSFLA tenha que ser formalizada num dos países da América Latina em detrimento de todos os outros. Podem haver “braços” nacionais formalizados como pessoas jurídicas, mas a própria FSFLA não será mais assim.

A palestra seguinte foi a do Dan Ravicher sobre “Patents and Free/Open Source Software: Introduction and Analysis”. Dan é advogado do Software Freedom Law Center e fez uma palestra brilhante e muito didática. Ele mostrou os problemas causados pelas patentes de software mas argumentou que eles acabam sendo mais impactantes para empresas de software proprietário. Uma razão é o fato de que nos EUA, cada parte envolvida numa ação sobre infração de patentes, paga, em média, uns três milhões de dólares. E lá não existe o princípio de que quem perde a ação arca com as custas advocatícias da parte vencedora. Deste modo, uma empresa detentora de patente só entraria com uma ação de infração se tivesse a expectativa de obter um ressarcimeno financeiro que pelo menos cobrisse seus custos com advogados. Portanto, somente empresas com algum porte seriam vítimas deste tipo de ação e o desenvolvedor de software livre comum não precisaria ficar preocupado.

Faz sentido, mas nem toda ação visa obter ganho financeiro direto. Um risco que independe do tamanho do bolso do desenvolvedor é o caso em que um software livre faz sucesso e começa a atrapalhar os planos de negócio de uma empresa produtora de um similar proprietário. Neste caso, a empresa pode julgar que os custos de uma ação seriam menores que o impacto que o software livre poderia lhe causar em termos de competição por clientes. E eu já ouvi falar de casos assim.

Um outro ponto que ele citou como argumento para justificar o menor risco que o software livre sofre com as patentes está relaciado ao tamanho do canal de distribuição. Se uma empresa que produz um software proprietário é processada por infração de patentes, o juiz pode demandar que o software em questão tenha sua distribuição interrompida. Mas o mesmo não poderia ocorrer caso a empresa processada produzisse software livre. A razão é que quando o software é proprietário, só a empresa que o produz é que tem o direito de distribuí-lo. Já no caso do software livre, se o juíz impedisse a empresa de distribuí-lo ele estaria ferindo um outro princípio jurídico que diz que o cerceamento de direitos não pode ser seletivo. A questão é que quando o software é livre, qualquer outra pessoa ou empresa poderia continuar a distribuí-lo e a empresa processada estaria tendo seus direitos restringidos de maneira inócua.

A próxima palestra foi do Jono Bacon, gerente de comunidade na Canonical, sobre “How to Herd Cats and Influence People“. O cara é extremamente elétrico e sabe como cativar o público. Bastante apropriado para a função que ele exerce na empresa. Ele disse que atualmente, principalmente depois que a Canonical fez sucesso com o Ubuntu, todas as empresas de software livre estão bastante preocupadas em cativar uma comunidade fiel. E a Canonical tem conseguido fazer isso como ninguém. Pelo que eu vi, o Ubuntu é, de longe, a distro mais usada neste FISL. Os pontos são os seguintes:

  • Encontrar pessoas de qualidade
  • Promover a integração das pessoas com interesses comuns
  • Promover a comunicação entre esses grupos
  • Facilitar a integração de novatos

Ele foi bastante aplaudido e acho que foi o mais tietado de todos os palestrantes.

A última palestra do dia foi do Jon ‘maddog’ Hall sobre “Why Free Software is Like a Pianola”. Ele falou sobre a história dos instrumentos musicais, em particular da do cravo, do piano e dos órgãos. Toda essa história é cheia de paralelos com a história do software. Acho que a idéia é usar esta analogia pra vermos por outra perspectiva as questões prementes sobre tecnologia e direito sobre o software à luz da história dos instrumentos musicais.

Saí da FIERGS e fui ao Shopping Lindóia. Parece que é o mais perto daqui, mas mesmo assim eu achei longe. Era pequeno e eu quase não consegui encontrar as lembranças pra família. Acabou dando tempo e eu jantei num rodízio de pizza. (Estou comendo tão mal que semana que vem vai ser só salada.)

Na volta peguei um táxi. Mal entrei e percebi que o motorista estava ouvindo algum tipo de pregação evangélica. Não deu outra… no caminho ele começou a falar sobre violência, sobre como o diabo veio ao mundo para destruí-lo e sobre como as mulheres deviam permanecer em casa cuidando dos filhos. Neste ponto eu não agüentei e perguntei por que é que nós não trocávamos de lugar com elas, deixando-as trabalhar e ficando em casa cuidando das crianças? Pra quê, né? Ele disse que há um princípio básico de que deus teria feito tudo certo e que o que ele diz ninguém desdiz e que tudo isso estava na Bíblia. Eu contra-argumentei que isso estaria certo desde que todos concordassem com este princípio, mas que minha condição de ateu nos colocava em bases diferentes.

Resultado… ficamos discutindo por mais uns 15 minutos dentro do carro na frente do Hotel. O cara tem uma leitura fundamenntalista da Bíblia. Eu consegui responder a alguns dos seus argumentos tentando mostrar que eles se baseavam ou em uma premissa questionável ou em uma simples falácia lógica. Mas realmente não dá pra levar uma discussão destas com base na razão. Um dos seus argumentos é o de que a Bíblia não deve ser lida com a razão, mas sim com o coração… não sei como levar uma discussão racional a partir disto. Mas tudo bem, quer dizer, nós nos despedimos cordialmente, ele me abençoou e eu o agradeci. Penso que poderia ter sido bem pior.

Amanhã é o último dia.


FISL8, primeiro dia

2007-04-12

Chegamos ao prédio da FIERGS às 9h30 e havia uma cinco filas enormes para os que já haviam pagado o evento. Ficamos uma hora na fila e perdemos a primeira palestra do dia. O pior foi que o pagamento do Hugo não havia sido confirmado e ele teve que enfrentar a fila pra pagar novamente. Acabou dando certo, mas ele só conseguiu resolver o problema ao meio-dia.

Eu não trouxe o laptop pra não ficar carregando peso, mas isso dificultou o acesso à Internet. Há três ilhas de thin clients que podem ser usadas por qualquer um, mas só quando alguém desiste. Consegui usar um pela manhã e comecei a editar o relatório do dia. Mas quando fui salvar deu pau e perdi tudo. Estou recomeçando agora, no início da noite. De pé. Com gente atrás de mim, esperando.

A primeira palestra que vi foi a do Jon ‘maddog’ Hall sobre VoIP. Foi muito boa. Ele começou com a história da telefonia e terminou falando do Asterisk. Alguns pontos interessantes:

  • Links com bastante informação
  • O antigo GnomeMeeting agora se chama Ekiga e parece estar muito bom
  • O Asterisk pode ser integrado ao SugarCRM e prover funcionalidades fantásticas para atendimento a clientes.
  • Algumas empresas, ao invés de fazer VoIP passar na rede de dados existente usando QoS pra garantir banda resolver partir direto pra implantação de uma rede Ethernet dedicada. Pode sair mais barato.

O mais engraçado foi quando ele explicou por que o método de conexão por circuitos é ineficiente. Ele simulou uma conversar de um casal que ia assim:

  • Felipe
  • (pausa)
  • Priscila
  • (pausa)
  • Felipe, eu te amo
  • (pausa)
  • Eu também, Priscila.

O fato é que em cada pausa destas cabe uma Bíblia de informação!

A próxima palestra foi sobre o projeto Linux-HA, pelo Mark Bilanski, do grupo de storage da IBM. Teve pouca novidade novidade. O mais interessante foi que recentemente lançaram a versão 2.0 que suporta clusters de até 16 nós e traz uma ferramenta gráfica para administração.

Ele mencionou o fato de que o Linux-HA é suportado por quase todas as distros com exceção da Red Hat. Eu lhe perguntei a razão e ele disse que o projeto tem conversado com a RH e que provavelmente no futuro próximo a Red Hat também passará a integras o Linux-HA, sem abrir mão de sua solução própria de cluster. Ele não tinha experiência com a solução da RH pra poder compará-las.

Depois desta eu tentei assistir à palestra sobre o Zabbix, mas parece que não houve. Entrei na sobre o Gimp mas senti que não ia ser legal. Acabei parando na palestra sobre o LiVES de que eu nunca havia ouvido falar e fiquei bastante impressionado. Trata-se de um software pra edição de filmes e sons com um interface muito bacana.

A abertura foi um saco e fiquei ouvindo podcasts.

Minha idéia seria assistir à palestra sobre o LVM2 mas quando cheguei perto vi que não ia ter condições de entrar. Estava lotada. Assisti, então, à palestra do Simon Phipps sobre a liberação do Java. Ele a preparou bem e mostrou dois videos impressionantes do Richard Stallman e do Eben Moglen, ambos elogiando a Sun pela iniciativa. O Stallman disse que ” The Java trap is no more“.

O Simon apresentou uma estatística mostrando que, em termos de número de linhas de código, 26% da distribuição Debian (a maior que há) foram contribuídos diretamente pela Sun. Essa contribuição seria três vezes maior que a da IBM e cinco vezes maior que a da Red Hat. Dentre os produtos que a Sun contribuiu ele citou o OpenOffice.org, o framework de acessibilitade do Gnome (chamado Orca) e o framework de internacionalização do Mozilla.

Num comentário à parte, o Simon disse que, como cidadão britânico, pode se cadastrar para receber por email todos os pronunciamentos de todos os parlamentares britânicos. Que coisa interessante não seria implementarmos algo assim por aqui, não?

Falando em “abertura”, ele também disse que “os usuários gostam de software livre não por causa do software em si, mas porque eles conseguem trazer de volta o controle para suas próprias mãos”. Ou seja, independência de fornecedor.

Ao final, ele chamou ao palco o Bruno Souza, ex-presidente do SouJAVA, o atual e um tal de Edgar Silva, que atualmente trabalha na Red Hat, na divisão JBoss. O cara parece muito bom e vou tentar encontrá-lo pra ver se o convido para ir ao CPqD.

Depois da palestra do Simon eu pretendia assistir à palestra sobre a infra-estrutura do Google. Contudo, devido ao atraso da abertura, a palestra do Simon passou 20 minutos do horário. Além do mais, a sala onde seria a palestra do Google era uma das três que ficam no meio da muvuca que é o salão principal. Elas são muito barulhentas e eu não consegui assistir nada lá. Desisti e fiquei na sala onde estava pra ver a palestra do Keith Packard sobre o projeto X.org.

Estou bem por fora do assunto. Em 1989 eu fiz um curso sobre o X Window e cheguei a implementar uma aplicação diretamente na Xlib. Mas nestes 18 anos muita coisa aconteceu com o projeto e com a arquitetura do X. Não deu pra entender muita coisa, mas deu pra ver que a maioria dos desenvolvedores do projeto é composta por bebedores contumazes de cerveja. De vários tipos.

Pulei a palestra seguinte e fiquei o tempo todo de pé, usando um thin client pra editar o início deste relato. Voltei e assisti a parte final da palestra do Rafael Evangelista sobre as diferenças filosóficas entre os movimentos de software livre e open source. Não vi muita novidade, mas acho que tem muita gente que viu. O Rafael fez uma leitura (literal) de vários textos do Richard Stallman e do Eric Raymond pra tentar entender os princípios norteadores dos movimentos liderados por eles. O sumário executivo é que se trata de dois movimentos distintos, com motivações distintas, mas que operam sobre o mesmo objeto: o software livre. Acho que faltou ressaltar que o número de pessoas que entende a diferença é muito pequeno e que o fato de alguém usar um termo (software livre) ou outro ( open source) não significa necessariamente que esteja endossando um movimento ou outro. Na maioria das vezes trata-se simplesmente de usar o termo que se aprendeu primeiro.

Vale também ressaltar que o Rafael usou o OpenOffice.org durante a apresentação de um modo no mínimo inusitado. Como eu peguei a palestra já começada não sei se ele explicou a razão, mas o fato é que ele seguia um texto no Writer, com correção ortográfica e cartacteres invisíveis habilitados e totalmente desformatado. Ou ele teve algum problema sério com a apresentação e teve que recuperá-la em ASCII ou ele não teve tempo de montar os slides depois de ter planejado a estrutura da apresentação no Writer. De qualquer modo, ele não parecia saber usar o Writer mesmo.

Passeei um pouco pela muvuca e senti o celular tocando. Minha filha, Juliana, me ligou dizendo que tinha feito um desenho pra mim e queria saber se eu ia lá ver ou se eu preferia que ela o mandasse pra mim pelo correio… Ela queria saber se eu iria voltar amanhã… É bom saber que tem gente com saudade de nós. Principalmente quando é alguém de quem nós estamos com saudades.

A última palestra do dia foi o XI episódio da série “Sapos Piramidais”, do professor Pedro Resende, da UnB. Ele falou sobre o recente acordo entre Microsoft e Novell, dizendo que se trata de uma tática bastante inteligente e inovadora da Microsoft para tentar subverter o espírito da GPL sem infringir a letra da lei. Felizmente o acordo foi fechado antes de a GPL versão 3 estar pronta, o que está dando tempo pra FSF fazer modificações para impedir que outros acordos sejam feitos de maneira similar. Pra quem quiser entender, sugiro que leia o artigo do professor ou que ouça a palesrta do Bruce Perens sobre o assunto. O resumo da ópera é que através deste acordo a Microsoft passa a ser capaz de estorquir grandes empresas usuárias de Linux, fazendo-as pagar um “seguro” contra possíveis ações por infração de patentes.

Terminadas as palestras eu e o Hugo pedimos sugestões de churrascarias pra podermos nos empanturrar. Infelizmente, parece que estamos longe de todas as boas churrascarias. Acabamos indo na Lançador. A carne estava boa e a cerveja estava ótima. Mas eu ainda fiquei com a sensação de que deve ter coisa bem melhor nesta cidade. O maior problema é que gastamos tanto de táxi quanto de carne…

De volta ao hotel, por volta das 23h, o Hugo foi avisado que o CPqD o havia liberado para ficar num outro quarto. Parece que ele estava certo quando disse que os problemas haviam terminado depois da abertura do FISL hoje à tarde.

Tem mais amanhã.


FISL8, a chegada

2007-04-11

Escrevo do Hotel Milão Turis, em Porto Alegre. Cheguei há pouco para o FISL que começa amanhã. Vim com o colega Hugo Lavalle, que trabalha na Diretoria de TV Digital do CPqD. Felizmente o avião não atrasou. O único problema é que eu quase não coube na poltrona tamanho diet. Mas tudo bem, quer dizer, não posso reclamar pois eu pedi pra vir.

O problema aconteceu na chegada. Eu vinha para o Milão mas o Hugo ia ficar num outro Hotel. Pegamos o mesmo taxi e eu o deixei lá primeiro e vim pra cá. Quando estava quase chegando ele me liga dizendo que naquele hotel eles não tinham uma reserva pra ele. Resultado, como todos os hotéis de POA estão lotados para o evento (são quase 5.000 inscritos), ele acabou vindo pra cá e vai ficar comigo. Felizmente o quarto tem três camas. 🙂

A expectativa para amanhã é grande e o sono também. Vou fechando por hoje pra agüentar o rojão dos próximos dias. Fiquem ligados!


Pré-FISL 8

2007-04-11

Fui a São Paulo ontem participar do evento Pré-FISL, no Hotel Macksoud. Como eu ia sozinho, resolvi anotar a rota no Google Maps com ajuda do meu colega marioct. Ajudou, mas não resolveu. Como sempre acontece comigo, bobeei e tive que dar umas voltinhas a mais.

Cheguei atrasado ao evento e peguei a primeira palestra pela metade, do Josh Berkus, sobre as novidades das novas versões do PosgreSQL. Aprendi que o Skype usa PostgreSQL nos seus servidores para implementar o processo de provisionamento do serviço. Aprendi, também, que de acordo com alguns benchmarks, o PostgreSQL consegue, hoje, atingir 80% do desempenho de um tal “EnterpriseDB” custando apenas 1/3 do custo total de propriedade. (EnterpriseDB é o codinome que o Josh usou para designar o maior servidor de bancos de dados proprietário atual. Parece que a sua licença proíbe o seu uso para este tipo de comparação.)

O Josh está trabalhando na Sun, e uma de suas tarefas é usar o DTrace do Solaris para trabalhar na otimização do código do PostgreSQL. Alguém perguntou se o DTrace estaria sendo portado para outros sistemas operacionais livres e ele disse que já existem patches para integrá-lo ao FreeBSD.

Quanto ao Linux, a integração é impedida devido à incompatibilidade das licenças. É interessante que a Sun já anunciou que futuras versões do OpenSolaris poderão ser disponibilizadas sob a futura GPLv3 enquanto o Linus Torvalds já disse várias vezes que pretende manter o Linux sob a GPLv2. Ou seja, pelo menos no futuro mais imediato, a licença do OpenSolaris deverá continar a ser incompatível com a licença do Linux, o que impede a integração de coisas interessantes, como o DTrace, no Linux.

Mas nem tudo está perdido no mundo Linux. O Josh mencionou o projeto SystemTap que pretende ser para o Linux o que o DTrace é para o OpenSolaris. Eu ainda não pude estudá-lo, mas a referência é quente.

A segunda palestra do dia foi a mais esperada. Jon ‘maddog’ Hall falou sobre thin clients. Faz tempo que eu queria ouvi-lo falar, pois já havia lido muitos elogios a seu respeito. Ele não me decepcionou. A palestra foi muito interessante, apesar de que especificamente sobre thin clients não houve muita novidade. Ele falou basicamente do LTSP. Mais interessante do que falar das vantagens do modelo thin client foi falar das desvantagens do modelo tradicional de PCs. Eles são caros, ineficientes (em termos de consumo de energia), barulhentos, espaçosos, um risco muito grande pra segurança e ecologicamente incorretos.

A questão da seguraça foi ressaltada com a história dos faxineiros com carros de luxo. Segundo o maddog, há muitos casos de faxineiros noturnos que “chupam” os dados dos PCs das empresas com seus pen drives e vendem os segredos obtidos para a concorrência, conseguindo, assim, aumentar a renda da família e comprar carros de luxo. Ainda não vi gente assim no Brasil, mas estou de olho.

Sobre “pirataria” de software, o maddog disse que os índices mais recentes são de 34% nos EUA, 84% no Brasil e 98% na China. Segundo ele, se a China decidisse pagar todas as licenças que usa, precisaria depositar todo o seu PIB na conta da Microsoft. Obviamente, isso não justifica o delito, mas mostra que há algo de errado no modelo de negócios ou na estrutura jurídica. Alguma coisa tem que mudar.

Uma dica do maddog foi o projeto MythTV, que seria algo como um Tivo livre.

No final da palestra ele mencionou a existência de um “plano de negócios” que ele tem bastante detalhado e que pretende apresentar para o governo brasileiro e para outras empresas do setor de telecomunicações. Ele não entrou em muitos detalhes, mas entendi que se trata de prover Internet para 100% da população brasileira através da interconexão de milhares de servidores numa rede wireless mesh. A tecnologia não é a novidade, mas o modelo de incentivo à adesão. Segundo ele, o modelo propiciaria inclusive a criação de um milhão de empregos. Peguei uma referência sobre isso com o Cesar Brod pra estudar melhor o assunto.

Na seção de perguntas alguém fez a de sempre: como fazer pro Linux deslanchar no desktop? O maddog disse que nos seus quase 40 anos de atuação na área ele descobriu uma grande lição:

It isn’t the OS. It’s the volume. Volume is the only thing.

Ou seja, é tudo uma questão de volume de vendas ou de presença no mercado. Haveria um ponto sem retorno de participação no mercado a partir do qual a adaptação dos desktops Linux para a população seria ladeira abaixo. Mas pra chegar lá, é preciso usar outras armas… é como a questão do frescor do Tostines.

A terceira e última palestra da manhã foi do Cezar Taurion, da IBM. Ele falou sobre os vários modelos de negócio baseados na utilização ou no desenvolvimento de software livre. Gostei muito, mas tive uma ou outra questão com os slides. Convidei-o a repetir a palestra no CPqD e ele aceitou. Vai ser ótimo poder conversar um pouco mais com ele.

Alguém fez uma outra pergunta comum, sobre o fato de haverem muitas distribuições Linux e como isso parece ser um desperdício de esforço. Não me lembro da resposta do Cezar, mas fiquei pensando numa nova abordagem de resposta. Diferente das tradicionais que normalmente fazem analogia com o processo de evolução por seleção natural. Uma outra forma de pensar na questão é lembrar das lições do Fred Brooks no seu clássico The Mythical Man-Month. Ele dizia, se a memória não me falha, que quando o número de pessoas participando de um projeto aumenta, o esforço de comunicação entre elas aumenta numa taxa maior. Chega um ponto em que não adianta acrescentar mais gente que o resultado chega a ser um decréscimo na eficiência geral do grupo. Pois bem, imagine que todos os desenvolvedores que hoje participam de todas as distribuições Linux resolvessem se juntar numa única distribuição BigLinux. Dificilmente alguém conseguiria gerenciar um projeto tão grande e o mais provável é que ele entrasse em processo de estagnação e de colapso. O fato de haverem múltiplas distribuições mantém os grupos menores e coesos, garantindo a eficiência interna. Quanto à sinergia entre as distribuições, isso acontece. Talvez não com a velocidade ideal, mas provavelmente com a velocidade possível.

Junto do material que nos foi distribuído havia um jogo de palavras cruzadas cujas perguntas eram todas relacionadas ao tema software livre. No meio da manhã disseram que os três primeiros que entregassem o jogo totalmente preenchido após o almoço receberiam um Tux de pelúcia. Daí eu pensei: já tenho um Tux mas tenho dois filhos… não custa tentar, né? Consegui preencher quase tudo antes do almoço, mas ainda faltavam umas cinco questões. Fui almoçar e passei ao lado de uma Lan House. Por um real dava pra usar por quinze minutos. Pensei: um real pelo Tux? Tá valendo… Com ajuda do Google consegui preencher tudo menos uma. Chutei e voltei ao Hotel. Chegando lá entreguei o jogo e fiquei esperando. Antes da primeira palestra da tarde me chamaram e disseram que eu tinha sido o único até então a entregar o jogo, mas que havia uma resposta errada. Peguei o jogo de volta e desisti, pois eu não sabia mesmo a resposta. Ao final da primeira palestra anunciaram que havia mais um pretendente, mas que ele tinha umas três respostas erradas. Passados alguns minutos chega um cara pra mim perguntando se eu era o outro pretendente. Ele sentou-se ao meu lado e “trocamos figurinhas”. Assim, conseguimos um Tux pra cada um.

Não acho que fizemos nada de errado. Afinal, a cola é uma metodologia colaborativa de aprendizado, não é? Bem apropriado ao tema do evento.

A primeira palestra da tarde foi do Kristian Kielhofner, sobre o Asterisk. Ele é o mantenedor do AstLinux, uma distribuição Linux especializada no Asterisk. Aprendi com ele o que é jitter, e por que isso é um problema para VoIP em geral e como o Asterisk trata o problema. Outra coisa que aprendi foi que em geral não é possível usar máquinas de fax numa rede VoIP. O Asterisk implementa um truque interessante para possibilitar isso.

Depois foi a vez do Amauri Zavatini, da Caixa Econômica Federal, falar sobre as experiências daquela instituição financeira com software livre. A palestra foi muito longa. Acho que ele devia ter se concentrado em apresentar poucos projetos relevantes, mas ele tentou falar de tudo. Mas aprendi algumas coisas interessantes:

  • A Caixa tem 118.000 funcionários e um número equivalente de desktops.
  • 70% destes desktops ainda rodam NT4.0!
  • Tiveram dificuldade na implantação do OpenOffice.org. A estratégia foi cancelar as atualizações do MS Office e configurar a máquinas para abrirem todos os documentos do Office com o OpenOffice.org. Mas ainda não tomaram a medida definitiva.
  • Estão para substituir o Exchange pelo Expresso Livre, desenvolvido pelo Governo do Paraná.
  • Eles têm 25.000 impressoras na rede e os custos dos insumos de impressão correspondem à 80% dos custos dos insumos de escritório em geral.
  • Estão experimentando uma solução de IM baseada no servidor Jabber do SuSE e nos clientes Pandion (Windows) e Gaim (Linux). O sistema fará autenticação dos usuários no AD da rede e deverá atender 1.500 usuários.
  • Ele mencionou o Framework Laszlo para desenvolvimento de aplicações web ricas. Eu já havia lido sobre ele… acho que merece atenção.

A última palestra do dia foi do Lous-Suarez Potts, porta-voz do projeto OpenOffice.org. Ele falou bastante do ODF e da sua importância. Mas sua mensagem principal foi para o risco que o projeto OpenOffice.org tem corrido nos últimos anos, visto que ele ainda é tocado principalmente pelos engenheiros da Sun. Se ele não conseguir atrair a colaboração de mais desenvolvedores estaremos sempre na dependência da boa vontade e dos bons negócios da Sun. E isso não é bom. Segundo ele, as versões mais recentes têm procurado diminuir as barreiras de entrada para colaboradores, como o refactoring do código para torná-lo mais modular, a implementação do framework de extensões e a simplificação do processo de compilação do produto. Mas considerando que o OOo é um colosso de 10 milhões de linhas de código, a maioria delas escritas em C++ (e, provavelmente muitos comentários ainda em alemão) não é de espantar a dificuldade desta empreitada.

Foi isso. A volta de carro transcorreu sem maiores incidentes. E a Juliana adorou o Tux.