Pré-FISL 8

Fui a São Paulo ontem participar do evento Pré-FISL, no Hotel Macksoud. Como eu ia sozinho, resolvi anotar a rota no Google Maps com ajuda do meu colega marioct. Ajudou, mas não resolveu. Como sempre acontece comigo, bobeei e tive que dar umas voltinhas a mais.

Cheguei atrasado ao evento e peguei a primeira palestra pela metade, do Josh Berkus, sobre as novidades das novas versões do PosgreSQL. Aprendi que o Skype usa PostgreSQL nos seus servidores para implementar o processo de provisionamento do serviço. Aprendi, também, que de acordo com alguns benchmarks, o PostgreSQL consegue, hoje, atingir 80% do desempenho de um tal “EnterpriseDB” custando apenas 1/3 do custo total de propriedade. (EnterpriseDB é o codinome que o Josh usou para designar o maior servidor de bancos de dados proprietário atual. Parece que a sua licença proíbe o seu uso para este tipo de comparação.)

O Josh está trabalhando na Sun, e uma de suas tarefas é usar o DTrace do Solaris para trabalhar na otimização do código do PostgreSQL. Alguém perguntou se o DTrace estaria sendo portado para outros sistemas operacionais livres e ele disse que já existem patches para integrá-lo ao FreeBSD.

Quanto ao Linux, a integração é impedida devido à incompatibilidade das licenças. É interessante que a Sun já anunciou que futuras versões do OpenSolaris poderão ser disponibilizadas sob a futura GPLv3 enquanto o Linus Torvalds já disse várias vezes que pretende manter o Linux sob a GPLv2. Ou seja, pelo menos no futuro mais imediato, a licença do OpenSolaris deverá continar a ser incompatível com a licença do Linux, o que impede a integração de coisas interessantes, como o DTrace, no Linux.

Mas nem tudo está perdido no mundo Linux. O Josh mencionou o projeto SystemTap que pretende ser para o Linux o que o DTrace é para o OpenSolaris. Eu ainda não pude estudá-lo, mas a referência é quente.

A segunda palestra do dia foi a mais esperada. Jon ‘maddog’ Hall falou sobre thin clients. Faz tempo que eu queria ouvi-lo falar, pois já havia lido muitos elogios a seu respeito. Ele não me decepcionou. A palestra foi muito interessante, apesar de que especificamente sobre thin clients não houve muita novidade. Ele falou basicamente do LTSP. Mais interessante do que falar das vantagens do modelo thin client foi falar das desvantagens do modelo tradicional de PCs. Eles são caros, ineficientes (em termos de consumo de energia), barulhentos, espaçosos, um risco muito grande pra segurança e ecologicamente incorretos.

A questão da seguraça foi ressaltada com a história dos faxineiros com carros de luxo. Segundo o maddog, há muitos casos de faxineiros noturnos que “chupam” os dados dos PCs das empresas com seus pen drives e vendem os segredos obtidos para a concorrência, conseguindo, assim, aumentar a renda da família e comprar carros de luxo. Ainda não vi gente assim no Brasil, mas estou de olho.

Sobre “pirataria” de software, o maddog disse que os índices mais recentes são de 34% nos EUA, 84% no Brasil e 98% na China. Segundo ele, se a China decidisse pagar todas as licenças que usa, precisaria depositar todo o seu PIB na conta da Microsoft. Obviamente, isso não justifica o delito, mas mostra que há algo de errado no modelo de negócios ou na estrutura jurídica. Alguma coisa tem que mudar.

Uma dica do maddog foi o projeto MythTV, que seria algo como um Tivo livre.

No final da palestra ele mencionou a existência de um “plano de negócios” que ele tem bastante detalhado e que pretende apresentar para o governo brasileiro e para outras empresas do setor de telecomunicações. Ele não entrou em muitos detalhes, mas entendi que se trata de prover Internet para 100% da população brasileira através da interconexão de milhares de servidores numa rede wireless mesh. A tecnologia não é a novidade, mas o modelo de incentivo à adesão. Segundo ele, o modelo propiciaria inclusive a criação de um milhão de empregos. Peguei uma referência sobre isso com o Cesar Brod pra estudar melhor o assunto.

Na seção de perguntas alguém fez a de sempre: como fazer pro Linux deslanchar no desktop? O maddog disse que nos seus quase 40 anos de atuação na área ele descobriu uma grande lição:

It isn’t the OS. It’s the volume. Volume is the only thing.

Ou seja, é tudo uma questão de volume de vendas ou de presença no mercado. Haveria um ponto sem retorno de participação no mercado a partir do qual a adaptação dos desktops Linux para a população seria ladeira abaixo. Mas pra chegar lá, é preciso usar outras armas… é como a questão do frescor do Tostines.

A terceira e última palestra da manhã foi do Cezar Taurion, da IBM. Ele falou sobre os vários modelos de negócio baseados na utilização ou no desenvolvimento de software livre. Gostei muito, mas tive uma ou outra questão com os slides. Convidei-o a repetir a palestra no CPqD e ele aceitou. Vai ser ótimo poder conversar um pouco mais com ele.

Alguém fez uma outra pergunta comum, sobre o fato de haverem muitas distribuições Linux e como isso parece ser um desperdício de esforço. Não me lembro da resposta do Cezar, mas fiquei pensando numa nova abordagem de resposta. Diferente das tradicionais que normalmente fazem analogia com o processo de evolução por seleção natural. Uma outra forma de pensar na questão é lembrar das lições do Fred Brooks no seu clássico The Mythical Man-Month. Ele dizia, se a memória não me falha, que quando o número de pessoas participando de um projeto aumenta, o esforço de comunicação entre elas aumenta numa taxa maior. Chega um ponto em que não adianta acrescentar mais gente que o resultado chega a ser um decréscimo na eficiência geral do grupo. Pois bem, imagine que todos os desenvolvedores que hoje participam de todas as distribuições Linux resolvessem se juntar numa única distribuição BigLinux. Dificilmente alguém conseguiria gerenciar um projeto tão grande e o mais provável é que ele entrasse em processo de estagnação e de colapso. O fato de haverem múltiplas distribuições mantém os grupos menores e coesos, garantindo a eficiência interna. Quanto à sinergia entre as distribuições, isso acontece. Talvez não com a velocidade ideal, mas provavelmente com a velocidade possível.

Junto do material que nos foi distribuído havia um jogo de palavras cruzadas cujas perguntas eram todas relacionadas ao tema software livre. No meio da manhã disseram que os três primeiros que entregassem o jogo totalmente preenchido após o almoço receberiam um Tux de pelúcia. Daí eu pensei: já tenho um Tux mas tenho dois filhos… não custa tentar, né? Consegui preencher quase tudo antes do almoço, mas ainda faltavam umas cinco questões. Fui almoçar e passei ao lado de uma Lan House. Por um real dava pra usar por quinze minutos. Pensei: um real pelo Tux? Tá valendo… Com ajuda do Google consegui preencher tudo menos uma. Chutei e voltei ao Hotel. Chegando lá entreguei o jogo e fiquei esperando. Antes da primeira palestra da tarde me chamaram e disseram que eu tinha sido o único até então a entregar o jogo, mas que havia uma resposta errada. Peguei o jogo de volta e desisti, pois eu não sabia mesmo a resposta. Ao final da primeira palestra anunciaram que havia mais um pretendente, mas que ele tinha umas três respostas erradas. Passados alguns minutos chega um cara pra mim perguntando se eu era o outro pretendente. Ele sentou-se ao meu lado e “trocamos figurinhas”. Assim, conseguimos um Tux pra cada um.

Não acho que fizemos nada de errado. Afinal, a cola é uma metodologia colaborativa de aprendizado, não é? Bem apropriado ao tema do evento.

A primeira palestra da tarde foi do Kristian Kielhofner, sobre o Asterisk. Ele é o mantenedor do AstLinux, uma distribuição Linux especializada no Asterisk. Aprendi com ele o que é jitter, e por que isso é um problema para VoIP em geral e como o Asterisk trata o problema. Outra coisa que aprendi foi que em geral não é possível usar máquinas de fax numa rede VoIP. O Asterisk implementa um truque interessante para possibilitar isso.

Depois foi a vez do Amauri Zavatini, da Caixa Econômica Federal, falar sobre as experiências daquela instituição financeira com software livre. A palestra foi muito longa. Acho que ele devia ter se concentrado em apresentar poucos projetos relevantes, mas ele tentou falar de tudo. Mas aprendi algumas coisas interessantes:

  • A Caixa tem 118.000 funcionários e um número equivalente de desktops.
  • 70% destes desktops ainda rodam NT4.0!
  • Tiveram dificuldade na implantação do OpenOffice.org. A estratégia foi cancelar as atualizações do MS Office e configurar a máquinas para abrirem todos os documentos do Office com o OpenOffice.org. Mas ainda não tomaram a medida definitiva.
  • Estão para substituir o Exchange pelo Expresso Livre, desenvolvido pelo Governo do Paraná.
  • Eles têm 25.000 impressoras na rede e os custos dos insumos de impressão correspondem à 80% dos custos dos insumos de escritório em geral.
  • Estão experimentando uma solução de IM baseada no servidor Jabber do SuSE e nos clientes Pandion (Windows) e Gaim (Linux). O sistema fará autenticação dos usuários no AD da rede e deverá atender 1.500 usuários.
  • Ele mencionou o Framework Laszlo para desenvolvimento de aplicações web ricas. Eu já havia lido sobre ele… acho que merece atenção.

A última palestra do dia foi do Lous-Suarez Potts, porta-voz do projeto OpenOffice.org. Ele falou bastante do ODF e da sua importância. Mas sua mensagem principal foi para o risco que o projeto OpenOffice.org tem corrido nos últimos anos, visto que ele ainda é tocado principalmente pelos engenheiros da Sun. Se ele não conseguir atrair a colaboração de mais desenvolvedores estaremos sempre na dependência da boa vontade e dos bons negócios da Sun. E isso não é bom. Segundo ele, as versões mais recentes têm procurado diminuir as barreiras de entrada para colaboradores, como o refactoring do código para torná-lo mais modular, a implementação do framework de extensões e a simplificação do processo de compilação do produto. Mas considerando que o OOo é um colosso de 10 milhões de linhas de código, a maioria delas escritas em C++ (e, provavelmente muitos comentários ainda em alemão) não é de espantar a dificuldade desta empreitada.

Foi isso. A volta de carro transcorreu sem maiores incidentes. E a Juliana adorou o Tux.

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