Embebe em álcool e põe

Não foi a situação mais constrangedora pela qual já passei, mas é o máximo de constrangimento que eu me atrevo a passar neste blog.

Aconteceu há alguns meses. Fui à dentista pra dar uma olhada num dente que estava me incomodando. Conheço-a há muitos anos e o nosso papo é sempre bem agradável. Cheguei e esperei um pouco enquanto ela terminava uma consulta. Na minha vez ela me pediu um tempinho pra arrumar as coisas, já que era tarde e sua secretária já havia ido embora. Aproveitei pra iniciar o papo falando do assunto padrão: filhos. Os meus estavam gripados e tiveram febre naquele dia.

Eu falava disso em pé, na porta da sala do consultório, enquanto ela ia de um lado pro outro arrumando as coisas. Quando eu falei de febre ela parou, me encarou seriamente e disse:

– Sabe, eu fiquei sabendo esses dias de uma técnica ótima pra tirar a febre sem precisar de remédio.

Parecia importante e eu prestei atenção enquanto ela explicava:

– Você pega uma meia, embebe em álcool e põe.
– No ânus? Eu perguntei assustado.
– Não! Ela retorquiu encabulada. No pé!

(Podem terminar de rir… Eu espero.)

Eu sei… parece inacreditável que eu tenha dito aquilo. Mas depois de ter um acesso de riso na frente dela que durou uns dois minutos eu consegui me acalmar e tentei colocar panos quentes. Nessas horas é melhor ficar quieto pra não piorar as coisas. Mas eu não me lembrei disso e falei:

– É. Se fosse, curava tudo, né?

Não podia ficar muito pior do que isso. Durante toda a consulta eu me esforcei pra prestar atenção à conversa mas sem muito sucesso. Virava e mexia e lá vinha aquela risada impossível de evitar. Uma semana depois do incidente eu ainda tinha ataques de riso nos momentos menos convenientes. Minha esposa já não agüentava mais.

Mas eu tentei aproveitar este tempo pra entender como é que aquilo pôde acontecer.
Não, justificar não, pois é impossível. Mas eu queria encontrar uma explicação pra aquela idéia estapafúrdia ter passado pela minha cabeça.

A explicação que encontrei é a seguinte. Em primeiro lugar, quando ela começou a falar da tal “técnica” eu tive a nítida impressão de que ela havia abaixado a voz, como se estivesse tomando cuidado pra não falar alto demais. É bem possível que isso não tenha ocorrido de verdade e que tenha sido uma falsa impressão decorrente do fato de ela ter parado de fazer o que estava fazendo pra falar do assunto. Pode ser, também, que eu simplesmente tenha construído esta memória na tentativa de encontrar alguma explicação pra minha escorregada. Não sei. Mas alguma coisa na atitude dela sinalizou pra mim que poderia haver algo de “inusitado” na técnica que ela estava pra me explicar.

Em segundo lugar, quando ela disse “embebe em álcool e põe” ela fez um movimento insinuante com a mão direita. Primeiro ela uniu as pontas dos cinco dedos e os apontou pra baixo. Depois ela fez um movimento rápido de rotação com o pulso fazendo os dedos apontarem para o teto. Não sei quanto à vocês, mas por mais que eu pense sobre o assunto eu não consigo imaginar alguém fazendo este movimento pra calçar uma meia.

Nos poucos décimos de segundo que se passaram entre ela dizer “e põe” e eu responder “no ânus?” meu cérebro construiu uma imagem inusitada e totalmente diferente da que ela tentava representar. E diante do espanto que a imagem me causou, não houve tempo para eu me censurar e me impedir de proferir aquela obcenidade.

Mas não foi tão ruim como pode parecer. Afinal, nós nos conhecemos há bastante tempo. A única coisa que me incomoda agora é não saber o que ela ficou pensando depois. Quer dizer, ela também deve ter construído a sua própria teoria sobre a minha reação. Espero que eu não tenha ficado muito mal na fita…

Acho que não. Afinal, eu escrevi este post alguns dias depois do incidente, quando a memória ainda estava vívida. Desde então já estive no consultório dela outra vez e não houve nenhuma rememoração constrangedora. Só por isso resolvi finalmente publicar minha história.

Agora é com vocês. Ajudem-me a me sentir melhor contando as suas próprias experiências constrangedoras e fazendo-me acreditar que todo mundo passa por isso uma vez ou outra.

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