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Eu estava morrendo de sono ontem e apaguei às 23h45. O Mario disse que ficou acordado até depois da 1h e que teve dificuldade pra dormir por causa do barulho… do meu ronco. Melhor ele dormir antes de mim hoje.

Acordei às 6h30 e tomamos café tranqüilamente. Pegamos um táxi e chegamos à PUCRS antes das 8h30, o que parecia ser bastante cedo. Mas, ao chegarmos, vimos filas já bem grandes pra pegar o material. Fiquei mais de 1h na fila que, obviamente, era a mais lenta de todas.

As palestras das 10h não eram interessantes e eu dei uma passeada pelo setor de exposições. Há muito mais stands que em 2005 e eu achei que ficou meio apertado pra circular. Há vários stands de governo. Os maiores são os da Sun e o da Globo.com (quem diria).

Às 11h fomos assistir à palestra do Shane Coughlan, coordenador do Freedom Task Force da FSF Europe. Ele é irlandês e fala muito bem. Achei que a palestra seria sobre as diferentes licenças de software livre, mas tratou mais sobre as ações da FSFE para aumentar a visibilidade e o nível de informação sobre software livre no setor governamental europeu. Ele deixou claro que a principal missão do FSFE é educar os governos e os demais setores da União Européia e mencionou que, apesar de o nível de entendimento ser cada vez maior, ainda é necessário reforçar constantemente que o free em free software significa liberdade e não gratuidade, e que o mero acesso ao código fonte não significa que o programa seja livre ou open source, mas que a sua licença precisa garantir as liberdades básicas de usar, estudar, melhorar e distribuir o programa.

Em relação às licenças, ele disse que é fundamental entender o que elas garantem e exigem em contrapartida. Mais que isso, é preciso entender o porquê de elas serem como são para poder entender o benefício do software livre.

Ocorreu em 11/04 passado o European Licensing and Legal Workshop em Amsterdam, congregando agentes de governo e pequenas e médias empresas européias e asiáticas para discutir questões sobre o licenciamento de software livre e sobre os benefícios e riscos de sua utilização. Segundo Shane, esse evento foi um ponto de inflexão na discussão desses assuntos pois, pela primeira vez, não houve um ambiente conflituoso e todos os envolvidos estavam seriamente engajados em debater assuntos complexos e relevantes.

Às 12h fui assistir à 12ª edição dos Sapos Piramidais do professor Pedro Rezende. O título desta edição foi ‘”Pontes” de PI. Para onde?’. Ele falou sobre os eventos mais relevantes do último ano que afetaram ou ainda podem vir a afetar a sustentabilidade do modelo de software livre no aspecto jurídico. Foi uma palestra muito corrida e ele, como sempre, não conseguiu terminar antes de esgotar o tempo, não tendo dado tempo pra nenhuma pergunta.

O que eu achei mais interessante foi o conceito de forum shifting que, segundo ele, tem sido utilizado pelas grandes corporações pra defender seus modelos de negócio através da radicalização da legislação de propriedade imaterial. (Ele se recusa a usar o termo “propriedade intelectual” pelos motivos apontados pelo Richard Stallman.) Essa técnica consiste em abandonar um fórum de discussão quando o encaminhamento de um assunto esteja indo contra os seus interesses e tentar levar a discussão para um outro fórum. Por exemplo, é o que ocorreu na Europa quando as corporações de radio-difusão abandonaram a discussão no WIPO sobre o Tratado de Broadcasting e criaram uma nova entidade (ACTA) para reposicionar a discussão em termos mais favoráveis aos seus interesses…. é tão bacana quanto assustador.

Às 13h assisti à palestra do Arnaldo Carvalho de Melo sobre as ferramentas de depuração de binários em que ele está trabalhando. É muito interessante. As ferramentas (pahole, pfunct, codiff, etc.) usam as informações de depuração do binário ELF, que são em formato DWARF, pra tentar otimizar o leiaute das estruturas de dados visando melhor aproveitar as codelines do cache do processador e otimizar a utilização de funções inline. Essas ferramentas parecem ter tido muito valor na otimização do kernel do Linux e de outros projetos, como o KDE.

Eu não sabia, mas hoje é possível gerar as informações de depuração em um arquivo separado do binário ELF. Algumas distribuições já estão disponibilizando pacotes paralelos com esta informação. Por exemplo, o pacote “firefox” conteria os binários stripped enquanto o pacote “firefox-debuginfo” conteria os arquivos com as informações de depuração.

O nome DWARF foi “forçado” pra casar com ELF e lembrar o LOTR. Nerdisse…

Às 15h assisti a uma palestra “Uma nova Lei Autoral para o Brasil: equilíbrio entre proteção e acesso ao conhecimento” que foi apresentada por dois professores da FGV, um advogado do IDEC e um funcionário do Ministério da Cultura. Os quatro usaram diversos argumentos para demonstrar que a Lei Autoral brasileira é excessivamente restritiva e que precisa de uma atualização urgente para adequá-la à realidade de hoje em que mecanismos para cópia e disseminação de informação são ubíquos. De acordo com Sergio Branco, da FGV, o Brasil é dos poucos países “desenvolvidos” em que a lei não admite em hipótese alguma a cópia integral de uma obra. Em outros países isso é permitido para, por exemplo, permitir que uma biblioteca digitalize algum livro que esteja sendo destruído pelas traças, ou que o proprietário de um LP possa digitalizá-lo. A legislação alemã, por exemplo, permite que livros que já tenham saído de catálogo há mais de dois anos sejam copiados integralmente.

A legislação autoral brasileira, segundo eles, acaba forçando uma relação de perde-perde, pois os consumidores não têm acesso a obras das quais os próprios autores já não possam mais explorar comercialmente.

O participante do IDEC argumentou que a lei autoral fere o princípio jurídico da proporcionalidade, que diz que as penas devem ser proporcionais à gravidade do delito. Segundo ele, no Brasil, o cidadão que baixa músicas da Internet pode ser preso ao passo que há vários crimes muito mais graves que são punidos no máximo com a aplicação de uma multa.

O último a falar foi Pedro Paranaguá, que eu não conhecia mas que me impressionou pela juventude e pela clareza de idéias. O trabalho dele na FGV pode ser acompanhado no site http://www.a2kbrasil.org.br/.

Às 17h assisti à apresentação sobre a migração do site da Dicas-L para o Drupal. Infelizmente o Rubens Queiroz não pode vir. Além disso, a rede do FISL estava fora e os palestrantes não puderam mostrar o novo site e suas funcionalidades. A palestra acabou abordando as funcionalidades que foram implementadas no site e serviu pra tirar algumas dúvidas de quem estava lá e já trabalhava com o Drupal. Não me impressionou muito.

Ah, durante a citação das funcionalidades, pelo que entendi, eles disseram que a parte de envio das mensagens na newsletter não foi alterada porque são quase 30 mil destinatários e o esquema atual era suficientemente robusto. Eu não sei se o Rubens ainda usa o bulk_mailer, mas há alguns anos ele estava sofrendo pra enviar mensagens uma a uma e eu sugeri pra ele esse programa.

Às 18h fui assistir ao painel Futuros Digitais do qual deveria participar o ministro Mangabeira Unger, mas ele acabou não podendo vir. De qualquer modo foi muito interessante. O primeiro a falar foi o Marcelo D’Elia Branco que enrolou um pouco mas deixou seu recado argumentando que não é o patamar tecnológico de um país que determina a qualidade de suas relações sociais. Ele citou como exemplos de países com patamares tecnológicos evoluídos mas dos quais ele não inveja a situação social os EUA, pela exacerbação do individualismo, Cingapura, pelo regime totalitário e um outro de que não me lembro. Não sei se concordo com todos os exemplos, mas creio que ele tenha razão na sua tese.

O segundo palestrante foi o advogado Ronaldo Lemos que muito me impressionou. Ele fez mestrado em Harvard e doutorado na USP. Segundo ele, é fundamental que o Brasil crie um marco regulatório civil que defina as responsabilidades dos provedores de acesso e de conteúdo. Os EUA já têm o seu desde 1999. Enquanto não tivermos essa legislação estaremos sugeitos às mais variadas interpretações de juízes que em sua maioria não têm o conhecimento técnico e a experiência social que lhes permita avaliar corretamente casos envolvendo abusos dos meios de comunicação digitais. Ele citou um exemplo de um juíz de São Paulo que, por não ter conseguido identificar o autor de alguma calúnia postada no site de um terceiro, condenou a Lan House que foi identificada como tendo sido o ponto de acesso do infrator. Outro absurdo é o projeto de lei do senador Azeredo que pretende regulamentar criminalmente a Internet sem que tenhamos sua regulamentação civil definindo as responsabilidades dos seus usuários.

Ronaldo Lemos ainda citou um paradoxo interessante. Segundo ele, o Brasil é um dos poucos (se não o único, não me lembro) países a garantir o direito à privacidade na própria Constituição. Apesar disso, não temos leis regulamentando esses direitos. Por conta disto é que só em 2007 foram concedidos mais de 409 mil grampos telefônicos no Brasil… ainda bem que nossa privacidade é garantida!

Depois do Ronaldo quem falou foi o Pedro Paranaguá, da FGV. Ele citou vários casos em que as diferenças entre os regimes jurídicos dos países causam problemas nas relações internacionais.

Às 19h tentei assistir à palestra sobre o módulo Text::Statistics mas o palestrante estava atrasado e eu acabei indo ver a palestra do Frederico Neves, do Registro.br, sobre DNSSEC, que foi muito boa. Ele começou explicando sucintamente o funcionamento do DNS tradicional pra mostrar todas as suas vulnerabilidades. Daí ele introduziu o DNSSEC mostrando quais daquelas vulnerabilidades são resolvidas por ele. A importância do DNSSEC é que há diversos mecanismos de segurança que se baseiam no DNS, como os sistemas anti-phishing e anti-spam SPF e DKIM. Segundo ele, o problema hoje é tão sério que a maioria dos grandes bancos paga a empresas para ficarem monitorando constantemente o cache dos nameservers dos grandes provedores de acesso pra ter certeza de que não foram “poluídos” com informação inválida.

O Registro.br já implantou DNSSEC nos domínios jus.br, eng.br, eti.br e gov.br. A implantação nos domínios com.br e org.br depende ainda da homologação do NSEC3. Ocorre que o DNSSEC original define um mecanismo para que o cliente possa garantir a ausência de um registro que se chama NSEC, mas esse mecanismo permite que qualquer um consiga listar todos os registros de um domínio, essencialmente deixando publicados todos os registros de um domínio, o que é ruim do ponto de vista da segurança. O NSEC3 é uma nova forma de implementar garantia de inexistência de registro mas que não padece deste problema. Segundo Frederico, dentro de poucos meses poderemos contar com o DNSSEC no com.br e no org.br.

Ele fez uma exortação para que todos pensem seriamente em adotar essa tecnologia pois, quando estiver adotada em larga escala, poderá resolver grande parte dos problemas que hoje enfrentamos na Internet em relação à falsa identidade de servidores.

No final ele citou o BIND e o NDS como servidores DNS que estão em vias de implementar do NSEC3 totalmente. Eu perguntei a ele sobre o PowerDNS e ele disse que este servidor não implementa toda a especificação do DNSSEC. Eu disse a ele que recentemente me mostraram esse artigo que mostra que o PowerDNS é muito mais escalável que o BIND mas ele não acreditou. Segundo ele, o Registro.br já fez diversos testes com o PowerDNS e não constatou esta diferença. Eu fiquei de lhe enviar o link pra ele poder comentar.

Ainda sobre o PowerDNS, ele disse que a maior vantagem dele é que ele pode utilizar um banco de dados para manter os registros, coisa que o BIND não permite. Os registros do BIND ficam em arquivos texto. Mas, o Registro.br implementou um mecanismo de manutenção dos registros, que ficam em banco de dados, e que são espalhados para várias instâncias do BIND. Esse mecanismo deverá ser divulgado como software livre dentro de uns seis meses.

A última palestra do dia foi sobre as novidades do Plone3. Ela foi apresentada por dois caras da empresa ThreePointsWeb, que se especializa na criação de sites, treinamento e consultoria em Plone. Os caras parecem ser bons, mas a palestra foi cansativa. Segundo eles, o Plone é o único CMS livre que é considerado na categoria ECM, ou Enterprise Content Management.

Cansados e famintos fomos todos nos empanturrar na churrascaria Na Brasa, que foi considerada como a melhor da cidade pela revista Veja. Foi uma brasa, mora? Tanto que ao sairmos de lá o Daniel deu a idéia incrível de virmos a pé pro hotel. Afinal, seriam apenas cinco quadras. Só não raciocinamos direito e não previmos que tipo de quadras seriam elas… Eu disse que o hotel fica ao lado da rodoviária? E vocês conhecem alguma rodoviária que fique num bairro “viável” pra se passear a noite? … Nem eu. A cada esquina eu dava uma olhada pra todos os lados e contava pra ver se ainda estávamos todos juntos. Felizmente chegamos todos vivos. O único incidente digno de nota foi uma topada que o Mario deu na calçada e quase foi de nariz no chão. É que ele estava andando e “apreciando a fauna” do outro lado da avenida…. hehe.

Amanhã eu volto é de táxi.

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